Thursday, July 21, 2011

À queima roupa

O vazio volta, como um velho amigo. Reunimo-nos na sala, ofereço-lhe o jantar. Recusa. Não é costume acomodar-se aos meus desejos. Volta sem que lhe peça e é sempre recebido com estranheza. Nunca conto que venha mas, de braços abertos estende-se sobre o meu sofá, bebe da minha água, respira do mesmo ar. O vazio apodera-se de tudo à minha volta. E eu, generosa, deixo.

Amiga-se do meu corpo.

As tripas procedem a um auto-arranjo. A uma auto-obliteração…Uma implosão de vísceras. Forma-se o costumeiro buraco negro. O fígado já nem reclama: arruma as tralhas e vai embora. Os pulmões agasalham-se e fazem-se à estrada. E toda a zona abdominal emigra. As paredes dos músculos abrigam agora apenas ecos.

E o coração prefere quebrar-se, a ter de partir.

O ar deixa de ter cordas vocais para lhe extrair o som e por isso os gritos ficam mudos...E guardados estão, embargados, no meio dos ecos. O desespero engrossa este volume de nada. E o vazio aproveita-se:

Amiga-se do meu corpo.


http://www.dailymotion.com/video/x665wo_bruce-springsteen-missing_music

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