Thursday, July 21, 2011

À queima roupa

O vazio volta, como um velho amigo. Reunimo-nos na sala, ofereço-lhe o jantar. Recusa. Não é costume acomodar-se aos meus desejos. Volta sem que lhe peça e é sempre recebido com estranheza. Nunca conto que venha mas, de braços abertos estende-se sobre o meu sofá, bebe da minha água, respira do mesmo ar. O vazio apodera-se de tudo à minha volta. E eu, generosa, deixo.

Amiga-se do meu corpo.

As tripas procedem a um auto-arranjo. A uma auto-obliteração…Uma implosão de vísceras. Forma-se o costumeiro buraco negro. O fígado já nem reclama: arruma as tralhas e vai embora. Os pulmões agasalham-se e fazem-se à estrada. E toda a zona abdominal emigra. As paredes dos músculos abrigam agora apenas ecos.

E o coração prefere quebrar-se, a ter de partir.

O ar deixa de ter cordas vocais para lhe extrair o som e por isso os gritos ficam mudos...E guardados estão, embargados, no meio dos ecos. O desespero engrossa este volume de nada. E o vazio aproveita-se:

Amiga-se do meu corpo.


http://www.dailymotion.com/video/x665wo_bruce-springsteen-missing_music

Tuesday, November 9, 2010

Sentido por ai...

Procura-se escultor para o meu coração de pedra.

Thursday, October 21, 2010

Vitaminas.

Estou cansada, estou só cansada.

Estou só cansada, não tenho nada. É só cansaço. É só porque ele não está comigo. É só porque eu ainda não existo. É só porque ainda não me tocou.
Estou cansada porque não sou a areia que ele pisa, é só porque não sou o brilho dos seus olhos. É só, só porque não lhe falta o ar na minha presença.

Estou cansada, é só isso.
É só porque ele não estremece quando eu o olho nos olhos, porque ele não desespera pelos meus lábios. É só isso, é só cansaço.
É só porque ele não sente a falta da minha pele, da minha expiração quente. É só por isso. É só porque me doi.


É só porque ele não procura a felicidade no meu sorriso.

Estou só cansada.
É coisa pouca.
Não tenho nada.
É só cansaço.


http://www.youtube.com/watch?v=5IxPUbrDwTs

Thursday, January 28, 2010

Gritos.

Tu, poesia em estado sólido, em movimento. Perfeição átomo a átomo.
Impressionante como a perfeição física nos impinge a perfeição moral. Porque é que se não estranha que um feioso seja um completo ser abjecto, mas se espera de alguém belo que seja de perfeição moral?

De ti esperei a melhor das consciências e fui injusta contigo, mesmo que sejas poesia feita orgãos, sistemas.

Tu, poesia em estado sólido. Tu, minha dor em estado líquido.

Tuesday, February 3, 2009

Revelações de uma Segunda-feira.

Uma parte de crescer é saber exprimir sentimentos. E não é uma sobrancelha levantada, uma lágrima ou um sorriso no canto da boca. É fala-los. É, para quem não consegue, cuspi-los. Uma parte de saber crescer é poder aceitar ajuda ou o ombro amigo e não ficar na infância onde os nossos pais, à força de lidarem tanto connosco, já sabiam à légua o que estavamos a pensar e a sentir; mesmo quando não nos ligavam nenhuma.

Quando não se cresce, é sempre pior quando acontece a uma mulher. Imagine-se, além do preconceito associado - cabra fria (se fosse um homem, estava pura e simplesmente a ser um homem) - há ainda a frustração do que é natural: nós, gajas, somos por excelência o sexo que que exprime e melhor se articula em sentimentos. E espera-se isso de nós: que excretemos os maus sentimentos e exultemos os bons pelo dom da palavra e com a amiga mais próxima.

Quando uma mulher não cresce e não conecta com um qualquer próximo, é como se perdesse um membro ou não tivesse peito. É como se o género já não fosse identificado com uma correspondência unívoca.

Uma mulher que não fala tem um cancro a mina-la. Uma mulher que não expurga o que sente é uma mulher condenada à mais dura das doenças terminais - a solidão.

Friday, November 7, 2008

Dois mil. Dois mil e dois.

Primaveras, Outonos. Passaram-se anos e foi só ontem. Primavera, Outono. Em mim é Inverno vazio. Não há folhas, não há neve. Há a luz difusa do Inverno e o frio húmido nos ossos.
Pensei que quando me beijasse me sentisse viva, mas foi pior. Fiquei mais morta. Eu não queria morrer! Esta morte orgânica é tão pior que não ser amada. Sentir que não há nada dentro das paredes da pele, sentir que o vácuo é tão imenso doí mais do que não se ser correspondido.

Nem as ilusões nos salvam: no fim do dia sou eu contra mim própria, e nenhuma de nós ganha.

Sunday, November 2, 2008

Gambozinos

Um, dois, quatro, mais. Sonho com todos eles. Eles: reais, de carne e pele e ar nos pulmões. E cheiros, e olhos. Sonho com eles todos. Sonho com os tons, com as vibrações da voz. Sonho com os braços e as pernas, sonho comigo: sonho com o ar que respiram, com as palavras.
É tão duro saber que tudo o que me resta são sonhos e que, por pura dependência, sonho repetidamente.

Que eles fossem todos meus, todos eles: as peles, as mãos, os orgãos. Que fossem todos meus, eles que utilizam outra linguagem.

Se eles fossem meus, oh Deus! Já não eram sonhos. Eram meus!

http://br.youtube.com/watch?v=M8xG08JNdmg