Primaveras, Outonos. Passaram-se anos e foi só ontem. Primavera, Outono. Em mim é Inverno vazio. Não há folhas, não há neve. Há a luz difusa do Inverno e o frio húmido nos ossos.
Pensei que quando me beijasse me sentisse viva, mas foi pior. Fiquei mais morta. Eu não queria morrer! Esta morte orgânica é tão pior que não ser amada. Sentir que não há nada dentro das paredes da pele, sentir que o vácuo é tão imenso doí mais do que não se ser correspondido.
Nem as ilusões nos salvam: no fim do dia sou eu contra mim própria, e nenhuma de nós ganha.
Friday, November 7, 2008
Sunday, November 2, 2008
Gambozinos
Um, dois, quatro, mais. Sonho com todos eles. Eles: reais, de carne e pele e ar nos pulmões. E cheiros, e olhos. Sonho com eles todos. Sonho com os tons, com as vibrações da voz. Sonho com os braços e as pernas, sonho comigo: sonho com o ar que respiram, com as palavras.
É tão duro saber que tudo o que me resta são sonhos e que, por pura dependência, sonho repetidamente.
Que eles fossem todos meus, todos eles: as peles, as mãos, os orgãos. Que fossem todos meus, eles que utilizam outra linguagem.
Se eles fossem meus, oh Deus! Já não eram sonhos. Eram meus!
http://br.youtube.com/watch?v=M8xG08JNdmg
É tão duro saber que tudo o que me resta são sonhos e que, por pura dependência, sonho repetidamente.
Que eles fossem todos meus, todos eles: as peles, as mãos, os orgãos. Que fossem todos meus, eles que utilizam outra linguagem.
Se eles fossem meus, oh Deus! Já não eram sonhos. Eram meus!
http://br.youtube.com/watch?v=M8xG08JNdmg
Tuesday, October 21, 2008
Saturday, October 11, 2008
17 Agosto 2007
Há alturas em que se espera, faz parte de nós. As células esperam, o fígado espera. Espera-se.
Seis lados, cercada por um hexágono, espero.
Beberico; tem mais do que seis. O café não é mau. E eu espero: um golpe de sorte apenas, um vislumbre da metalidade.
Antigamente a felicidade de um casal era medida pelo número de filhos que tinham, mas isso só significava que gostavam da brincadeira. E agora, como se mede a felicidade de um casal? Pelo número de anos que fodem juntos? Esta Júlia Pinheiro!
Vou aliviar as saudades, vou ler o Público. O ego é uma coisa lixada: eu espero, mas não quero que se saiba, afinal de contas o orgulho feminino é para preservar. O que mais nos vale a não ser ele e o estrógenio? O que faz de nós gajas a não ser o nosso irritante e ultrapassado orgulho em ser gajas?
E é isto enquanto espero. Corto-me.
Seis lados, cercada por um hexágono, espero.
Beberico; tem mais do que seis. O café não é mau. E eu espero: um golpe de sorte apenas, um vislumbre da metalidade.
Antigamente a felicidade de um casal era medida pelo número de filhos que tinham, mas isso só significava que gostavam da brincadeira. E agora, como se mede a felicidade de um casal? Pelo número de anos que fodem juntos? Esta Júlia Pinheiro!
Vou aliviar as saudades, vou ler o Público. O ego é uma coisa lixada: eu espero, mas não quero que se saiba, afinal de contas o orgulho feminino é para preservar. O que mais nos vale a não ser ele e o estrógenio? O que faz de nós gajas a não ser o nosso irritante e ultrapassado orgulho em ser gajas?
E é isto enquanto espero. Corto-me.
Thursday, September 18, 2008
Assim se recuperam os sentidos
Em todo o tempo de estadia por esta vida, existe sempre um momento em que a única coisa que podemos fazer é ver. Ficar pacientemente à espera e olhar. Vêr.
Veja-se:
-Eu
-Ele
E nunca o nós.
Também podemos ver Eles. Mas não queremos vêr o Vós, é demasiado longe.
Por algum tempo vi o nós. Agora só quero ver ele. Vê-lo: tripas, pernas, ideias, pulmões, linfa, lábios. Lábios é importante.
E por algum tempo a raiva e a frustação foram inspiradoras. Algum tempo depois foi a pena e a compaixão. Agora estou sem nada, em estado de dormencia, e só quero ver.
Areia nos olhos, bancos de jardim, patos, folhas de papel, bébés carrinhando, gatos, mau humor, bom humor, peles brancas, mulatas, negras, cabelos soltos, apanhados. Deixar passar a minha vida e olhar. Porque é apenas isso que posso fazer.
E para ele, que apenas posso ver, o meu beijo nos lábios.
Veja-se:
-Eu
-Ele
E nunca o nós.
Também podemos ver Eles. Mas não queremos vêr o Vós, é demasiado longe.
Por algum tempo vi o nós. Agora só quero ver ele. Vê-lo: tripas, pernas, ideias, pulmões, linfa, lábios. Lábios é importante.
E por algum tempo a raiva e a frustação foram inspiradoras. Algum tempo depois foi a pena e a compaixão. Agora estou sem nada, em estado de dormencia, e só quero ver.
Areia nos olhos, bancos de jardim, patos, folhas de papel, bébés carrinhando, gatos, mau humor, bom humor, peles brancas, mulatas, negras, cabelos soltos, apanhados. Deixar passar a minha vida e olhar. Porque é apenas isso que posso fazer.
E para ele, que apenas posso ver, o meu beijo nos lábios.
Falaram em cutelo?
Se alguém sabe perfeitamente do que eu estava a falar no post anterior, são estes senhores e o respectivo realizador do clip: http://www.youtube.com/watch?v=kTVSygNKAsg . Claramente, os sentimentos são mesmo universais, e todos estamos bem mais perto dos artistas do que pensamos.
Tuesday, June 24, 2008
Cadeia alimentar
A primeira parte-lhe o coração, as seguintes pagam a factura. Foi sempre assim, desde tempos bem, bem idos. Em todo o Mundo, nada há de mais inocente que o primeiro amor: até o sexo é inocente. A mulher nunca se entregará assim a mais nenhum outro e eles nunca estarão tão frágeis com nenhuma outra. Cada uma delas ajuda-o a construir mais um muro para se proteger das outras. Cada uma delas é uma talhante, levando a cada golpe um pedaço de carne.
Levado ao extremo, nenhum desses homens consegue amar. Os orgasmos seguem-se com qualquer outra, mas no fim o respeito pelo sexo feminino escorre pelo cano abaixo.
São assim as mulheres, abutres.
Levado ao extremo, nenhum desses homens consegue amar. Os orgasmos seguem-se com qualquer outra, mas no fim o respeito pelo sexo feminino escorre pelo cano abaixo.
São assim as mulheres, abutres.
Monday, June 23, 2008
Canção do bandido.
A fascinação que as mulheres tem pelos contadores de histórias é intemporal. O serpenteante uso das palavras é paralisante, quase angustiante para a mulher que ouve. Um homem com o domínio da palavra é um homem que pisa suspiros, que arrasa egos, que acaba com o poder da mulher sobre o seu próprio corpo: os braços mexem-se sem o seu comando, o sangue passeia sem a sua autorização. O feminismo tal como é ensinado e definido passa completamente à história: um homem com o dom da voz é um homem sem rival à altura e, com um poder sem paralelo nas suas mãos, é o mais cobiçado de todos.
Tuesday, June 17, 2008
ctrl-alt-delete
Adoro este mundo em que toda a gente se expressa, onde toda a gente diz o que pensa.
Em que eu, sentada no chão,
Dum pequeno quadrado tudo vem ao meu encontro.
Ar, gente, fórmulas mágicas, comida, Deus, vem tudo ao meu encontro.
Adoro este mundo.
O mundo não é redondo nem está em expansão. O mundo, meus caros amigos, acabou de descobrir que existe.
Em que eu, sentada no chão,
Dum pequeno quadrado tudo vem ao meu encontro.
Ar, gente, fórmulas mágicas, comida, Deus, vem tudo ao meu encontro.
Adoro este mundo.
O mundo não é redondo nem está em expansão. O mundo, meus caros amigos, acabou de descobrir que existe.
Wednesday, May 28, 2008
Lamechice. Parte II
Quando um sentimento nasce já é tarde demais para o sangrar. Foda-se quando nasce, nasce a sério. O ódio nasce como trovoada, a doçura amacia tanto o chão que nos engole e o vislumbre do amor, esse ataca como bala, sem tempo para respirar e pensar friamente como aconteceu. Quando se expira já é tarde demais.
Porque será que depois de expirar já eu acho que passaram milhões de anos?
"She once was a true love of mine" (Bob Dylan)
Quem me dera parar.
Porque será que depois de expirar já eu acho que passaram milhões de anos?
"She once was a true love of mine" (Bob Dylan)
Quem me dera parar.
Friday, May 16, 2008
Alguém pediu lamechice das três da manhã?
Quem me dera ser tua amiga.
Quem me dera.
Quem me dera partilhar gelados contigo,
Partilhar silêncios.
Mas não posso.
Eu sou uma almofada, um foguete.
Eu sou uma ponte, uma lua.
Demasiado perto, demasiado reluzente,
Uma ligação demasiado longe de ti.
E no entanto ninguém me vê.
Eu gostava que fossemos amigos.
Mas não podemos.
Quem me dera.
Quem me dera partilhar gelados contigo,
Partilhar silêncios.
Mas não posso.
Eu sou uma almofada, um foguete.
Eu sou uma ponte, uma lua.
Demasiado perto, demasiado reluzente,
Uma ligação demasiado longe de ti.
E no entanto ninguém me vê.
Eu gostava que fossemos amigos.
Mas não podemos.
Tuesday, April 29, 2008
Ignorance is not bliss
Quando o fel se liberta e o verniz estala somos todos muito felizes. A honestidade que verte depois da quebra das convenções sociais é refrescante. Já que raramente exprimimos o que realmente pensamos, nada há melhor do que alguém perder a cabeça. A força altamente energética que liberta é estranhamente revigorante, afinal quem não fica satisfeito ao saber o que realmente se pensa dele? Quem não fica feliz por saber com o que contar? Quem não fica feliz por deixar de ser ignorante?
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